Luto Revista Gloss

Desde que acordei estou tentando digerir a  noticia que minha mão me deu. Saber que a Revista que fez parte da minha vida por seis anos vai acabar me deixou um vazio. Pode parecer exagero, mas a relação que eu tenho com a Revista Gloss não era só de leitora, sentia como se eu fizesse parte da revista. Ao ler as páginas podia sentir o clima da redação, como as matérias foram escritas, pensadas, concebidas, imaginava as reuniões de pauta, a cobertura das matérias, as entrevistas, produções, o dia fotografando editoriais em locações diferentes.

A Editora Abril está em crise há algum tempo e já ameaçava fechar algumas publicações, ontem (01/08), a editora anunciou as mudanças. As publicações Alfa (segmento masculino), Bravo! (Arte e Cultura), Lola (Segmento feminino) e Gloss (Segmento feminino intermediário) foram descontinuadas, ou seja canceladas. O que me intriga é que são publicações importantes, talvez, não as mais tradicionais, como a Veja (publicação mais importante do Brasil), Capricho ou Elle, mas sem duvida são publicações que farão falta. A Alfa trazia uma linguagem diferente para o publico masculino, com um cuidado visual muito grande, até eu lia. A Bravo! é a revista mais importante de arte e cultura do país, conteúdo muito interessante, das publicações canceladas era a mais tradicional e é uma perda inestimável pra o segmento. A Lola era uma revista para a mulher na faixa dos 40 anos com uma linguagem dinâmica e diferente das demais no mercado, já esperava em breve coleciona-la, sempre trazia capas e matérias interessantes. A Gloss foi pioneira no segmento intermediário – atingia o publico que havia lido a Capricho, mas ainda não chegava perto da Nova – com um cuidado enorme com a diagramação e a parte visual a revista era linda (sinto tanto em já menciona-la no passado), com foco especial na parte de moda, que muitas vezes, tinha editoriais mais interessantes que a própria Vogue, matérias divertidas e bem escritas sobre comportamento, sexo, viagem, gastronomia… Um clima todo especial e único que fazia parte da revista.

Mais que lamentar o fechamento das revistas e a demissão de cerca de 150 profissionais, lamento pela perda para a cultura. Conversando com meu namorado ele entrou na questão da perda de espaço por causa dos blogs, sinceramente, isso pode ser um dos fatores, mas nem de longe é o determinante, não conheço ninguém que deixou de ler revistas por causa de blogs, pelo contrário, um post as vezes aguça a curiosidade e dá vontade de pesquisar mais sobre um assunto que está em uma revista, por exemplo. Fora que uma linguagem não substitui a outra, a revista traz conteúdos mais completos, pelo maior tempo de apuração da noticia e maior estrutura editorial. O problema mesmo está na crise que a Abril está passando, espero que, de alguma forma, eles consigam sair dessa, perder mais publicações que pertencem a editora seria ainda mais lastimável, as revistas da Abril, na minha opinião, são as de melhor conteúdo.

Outro fator que pode ser questionado é a concorrência, ano passado surgiu outra revista para concorrer com a Gloss, já que a Criativa não estava mais dando conta. Com linguagem mais jovem e muito dialogo com a blogosfera a Glamour abriu seu espaço no mercado. Porém a Gloss continuou líder no segmento, não só em vendas no varejo e assinaturas, mas também na qualidade. Vamos falar a verdade, será impossível migrar para a Glamour (como uma amiga perguntou se eu faria), pois quem está acostumado com o conteúdo da Gloss não se contenta com as matérias rasas e fracas da concorrente. A Glamour pode ser legal? Pode! Mas o cuidado com o layout, identidade visual, fotos, tratamento, matérias, pautas, apuração e principalmente os editoriais nem de longe é o mesmo. Afinal de contas é muito caro manter a qualidade e os profissionais com um precinho baixo e a Abril conseguiu fazer isso de maneira brilhante nesses seis anos. A Gloss inovou, me acompanhou nos melhores anos da vida (como diz seu slogan) e deixou seu recado.

Fica registrado meu imenso carinho pela revista e o agradecimento de uma leitora fiel, que tem todas as edições, a todos que fizeram parte da revista. Nunca vou deixar de me imaginar trabalhando nessa redação. Quem sabe um dia isso não aconteça? Tenho esperança! Parece sonho de adolescente, mas a relação que criei com a Gloss foi de identificação imediata, com uma linguagem que fazia parte da minha vida. Sentirei falta de ficar curiosa sobre a capa, de esperar a revista chegar, de sentir o cheirinho das páginas, de ler as matérias e me sentir parte daquele universo. Pra finalizar a carta o post mais extenso que já fiz, vou confessar que me emocionei ao escrever tudo isso.